domingo, 12 de outubro de 2008

Empréstimos podem atingir 10% do PIB em cinco anos, prevê Abecip

Finanças - Fernando Travaglini

Mesmo com o forte avanço do crédito imobiliário nos últimos anos, o saldo total do sistema, na casa dos R$ 37 bilhões, ainda é pequeno em relação ao total de crédito no Brasil. Estudo do Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad) mostra que essa proporção é de 1,7% em relação ao PIB (com dados anteriores a revisão do IBGE).
 
O valor é bastante inferior aos outros países emergentes, como África do Sul (14%), Chile (13%) e México (9%). A diferença para os países mais ricos é ainda maior. Na Holanda, a proporção é de 111%, ou seja, o volume de crédito habitacional supera todo o produto interno bruto.
 
A baixa relação reduz também a proporção do volume de crédito total em relação ao PIB, no Brasil perto de 35% e inferior a países como África do Sul (141%) e Chile (63%). Mas a perspectiva é bastante favorável na opinião do presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Décio Tenerelo. "A retomada do crédito continua numa velocidade interessante e temos potencial para atingir 10% do PIB nos próximos cinco anos", avalia.
 
Esse percentual, lembra o analista do Inepad, Marcel Artoni de Marco, já foi atingido no final dos anos 90. "Isso foi antes da criação da Empresa Gestora de Ativos (Emgea), que assumiu a parte podre do crédito imobiliário da Caixa (cerca de R$ 30 bilhões) e passou a cobrar essas dívidas", explica. Para ele, a tendência no longo prazo é de aproximação da média mundial, em torno de 30% do PIB, já que este tipo de financiamento tem crescido acima do restante do crédito. Em 2005, avançou 61% e no ano passado subiu 92%.
 
Com as mudanças legais ocorridas nos últimos anos e a criação da exigibilidade, que obriga os bancos a direcionaram 65% da poupança para esses financiamentos, as instituições entraram com força no segmento. A líder Caixa Econômica Federal pretende conceder mais de R$ 17 bilhões no ano, acima dos R$ 14 bilhões de 2006.
 
Outros bancos também devem crescer. O Itaú afirmou recentemente que nos próximos 10 anos, o crédito imobiliário deverá representar cerca de 10% dos resultados do banco. Já o Banco do Brasil espera apenas a aprovação do Banco Central em setembro para começar a atuar.
 
Segundo o analista do Inepad, também responsável pelo estudo, Vinicius Martins Castilho, a inadimplência é algo que preocupa o setor. "Pelo estudo, vimos que é mais comum o atraso nas carteiras de crédito imobiliário comparando com outras carteiras". A porcentagem de bons pagadores no setor público é de apenas 3%, com a inadimplência acima de 90 dias na casa dos 10% da carteira. Nos empréstimos de instituições privadas, a adimplência é de 29% e pula para 70% nas concessões de estrangeiros.
 
O crescimento da oferta, no entanto, não é suficiente para ampliar a proporção em relação ao PIB. Para o diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Andrew Storfer, o grande problema é a renda disponível da população. "Temos um binômio perverso, com baixa relação de crédito em relação ao PIB e empréstimos extremamente caros", afirma.
 
Para Tenerelo, o crescimento da renda da população de 5% no ano passado, acima dos 3,9% do IPCA, "mostra que estamos no caminho certo", mas alerta para a necessidade de se fazer alguns ajustes legais e operacionais. Segundo ele é preciso avançar mais para que se fomente inclusive a participação dos investidores institucionais por meio da compra de securitização dos recebíveis. Ele afirma que a padronização dos contratos, para possam ser facilmente negociáveis no mercado já deve ser adotada neste semestre.

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